Reforma Tributária na Prática

Construtoras e incorporadoras: como a LC 214/25 muda a tributação do setor imobiliário

Radar da Reforma Tributária · · 11 min de leitura
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Neste artigo
  1. O ponto de partida: o que muda em relação ao regime atual
  2. As operações do setor e como cada uma é tratada
  3. O redutor de ajuste para incorporadoras: como é formado
  4. O que pode ser somado ao redutor ao longo do empreendimento (art. 258, §6º):
  5. O loteamento por contrato de parceria
  6. A permuta de terreno por unidades a construir
  7. O que muda no crédito de IBS e CBS
  8. O ponto de atenção mais urgente: o redutor de 31/12/2026

De todos os setores da economia, poucos foram tão diretamente afetados pela Reforma Tributária quanto a construção civil e a incorporação imobiliária. Construtoras, incorporadoras e loteadoras são, por natureza, contribuintes do regime regular do IBS e da CBS — e todas as suas operações de venda, construção e intermediação estão dentro do campo de incidência da Lei Complementar nº 214/2025.

Mas a LC 214/25 não apenas criou novos tributos. Ela também construiu um regime específico para o setor — com alíquotas reduzidas, mecanismos de dedução de base de cálculo, regras próprias para créditos e tratamento diferenciado para cada tipo de operação. Quem entender esse regime terá vantagem competitiva real a partir de 2027.

O ponto de partida: o que muda em relação ao regime atual

Hoje, construtoras e incorporadoras recolhem, entre outros tributos federais, o PIS e a Cofins sobre sua receita — com alíquotas que variam conforme o regime tributário adotado (lucro real, lucro presumido ou Simples Nacional) e com regras de creditamento próprias para cada caso. O ISS incide sobre os serviços de construção civil prestados.

A partir de 2027, PIS, Cofins e ISS são substituídos pelo IBS (de competência dos estados e municípios) e pela CBS (de competência federal). A lógica de crédito muda, a base de cálculo é redefinida e as alíquotas passam a ser unificadas — com a redução de 50% prevista no art. 261 para o setor imobiliário.

A transição será gradual entre 2026 e 2033, com os tributos antigos sendo reduzidos progressivamente enquanto o IBS e a CBS aumentam. O regime pleno começa em 2033 — mas as regras do IBS e da CBS já valem a partir de 2027.

As operações do setor e como cada uma é tratada

Venda de imóveis — alienação e incorporação imobiliária

O art. 252, inciso I, inclui expressamente na incidência do IBS e da CBS a alienação de imóveis decorrente de incorporação imobiliária e de parcelamento de solo. Toda venda de unidade nova — apartamento, casa, lote — feita por uma incorporadora ou loteadora está sujeita aos dois tributos.

Exemplo — incorporadora vende apartamento residencial novo:

   
Preço de venda R$ 750.000
(–) Redutor de ajuste (terreno + construção corrigidos) R$ 500.000
Subtotal R$ 250.000
(–) Redutor social (residencial novo) R$ 100.000
Base de cálculo final R$ 150.000
Alíquota efetiva estimada (13,25%)
IBS + CBS estimados ~R$ 19.875

Sobre uma venda de R$ 750.000, o imposto efetivo estimado seria ~R$ 19.875 — cerca de 2,6% do valor da venda. Sem os redutores, o imposto sobre R$ 750.000 seria ~R$ 99.375.

Serviços de construção civil

O art. 252, inciso V, inclui os serviços de construção civil no campo de incidência do IBS e da CBS. Isso abrange desde pequenas reformas até grandes obras, quando prestados por contribuintes do regime regular.

Se os créditos de materiais excederem o débito da operação, o excedente não pode ser aproveitado. Ele simplesmente se perde.

Exemplo — trava de crédito na construção civil:

Uma construtora realiza uma reforma para um particular (não contribuinte) no valor de R$ 100.000:

O débito da construtora sobre o serviço (R$ 100.000 × 13,25%): R$ 13.250.

Nesse caso, a construtora tem R$ 4.000 de crédito — bem abaixo do débito de R$ 13.250. Não há trava a ser acionada aqui.

Agora o caso em que a trava aparece:

Serviço de R$ 50.000, com materiais de R$ 40.000 (crédito de R$ 5.300) e mão de obra de R$ 10.000. Débito sobre o serviço: R$ 50.000 × 13,25% = R$ 6.625. Crédito de materiais: R$ 5.300 → dentro do limite. Sem trava.

Caso extremo — obra com muitos materiais e pouca mão de obra: Serviço de R$ 30.000, materiais de R$ 28.000 (crédito de R$ 3.710), mão de obra R$ 2.000. Débito: R$ 30.000 × 13,25% = R$ 3.975. Crédito: R$ 3.710 → dentro do limite. Sem trava.

A trava fica evidente em obras de alto valor de material e baixo valor de serviço declarado: Serviço de R$ 20.000, materiais de R$ 45.000 (crédito de R$ 5.963). Débito: R$ 20.000 × 13,25% = R$ 2.650. Crédito disponível: R$ 5.963. Mas o limite é R$ 2.650 (o débito). Crédito aproveitado: R$ 2.650. Crédito perdido: R$ 3.313.

A exceção: obras para o poder público O art. 255, §6º isenta dessa trava as obras prestadas para a administração pública direta, autarquias e fundações. Nesses contratos, o crédito pode ser aproveitado integralmente, mesmo que exceda o débito da operação.

Serviços de intermediação imobiliária (corretagem)

O art. 252, inciso IV, inclui os serviços de administração e intermediação de bens imóveis no campo de incidência. Imobiliárias e corretores de imóveis que atuam como contribuintes do regime regular recolhem IBS e CBS sobre suas comissões.

Exemplo: Uma venda gera comissão total de R$ 30.000. O corretor A fica com R$ 18.000 e repassa R$ 12.000 ao corretor B.

O redutor de ajuste para incorporadoras: como é formado

O redutor de ajuste é especialmente relevante para incorporadoras, pois é ele que garante que o imposto incida apenas sobre a margem de lucro — não sobre o custo total do empreendimento.

Para incorporadoras com imóveis em construção em 31/12/2026, o art. 258, inciso II, define o redutor inicial como a soma de:

Para imóveis cujo terreno e construção começam depois de 2027, o redutor é o valor de aquisição do terreno mais os custos de construção incorridos — todos corrigidos pelo IPCA até a data da venda.

O que pode ser somado ao redutor ao longo do empreendimento (art. 258, §6º):

Vedação importante (art. 258, §8º): Se um desses valores for incorporado ao redutor, a incorporadora não pode, ao mesmo tempo, lançar crédito de IBS e CBS sobre os bens e serviços adquiridos para realizar aquela contrapartida. É uma ou outra — não as duas.

O loteamento por contrato de parceria

Bastante usado no mercado imobiliário, o contrato de parceria para loteamento — em que o dono do terreno não vende a área mas firma um acordo com a loteadora para viabilizar o empreendimento — tem regras próprias na LC 214/25.

O art. 257, §7º e o art. 259, §4º determinam que tanto o redutor de ajuste quanto o redutor social são compartilhados proporcionalmente entre os parceiros, conforme os percentuais definidos no contrato.

Exemplo: Terreno com redutor de ajuste de R$ 1.500.000. Contrato de parceria: dono do terreno com 35%, loteadora com 65%.

O redutor social de R$ 30.000 por lote também é dividido na mesma proporção em cada venda.

A permuta de terreno por unidades a construir

Como visto no artigo anterior desta série, a permuta — inclusive por unidades a construir — não é tributada pelo IBS e pela CBS (art. 252, §2º, I). Para incorporadoras que adquirem terrenos por meio de permuta, isso é especialmente relevante.

O redutor de ajuste do terreno recebido em permuta é formado pelo valor que o antigo dono tinha vinculado ao imóvel, distribuído proporcionalmente entre as unidades entregues. A incorporadora, ao vender cada unidade futuramente, poderá usar esse redutor herdado.

O que muda no crédito de IBS e CBS

Uma das mudanças mais relevantes do novo regime para o setor é a lógica de aproveitamento de créditos. No sistema atual, PIS e Cofins têm regras de creditamento complexas e cheias de exceções. No novo regime, a lógica é de crédito amplo sobre todas as aquisições de bens e serviços usados na atividade — com a ressalva do limite para obras a não contribuintes, já mencionado.

Isso significa que incorporadoras e construtoras poderão, em princípio, creditar o IBS e a CBS pagos na compra de terrenos, materiais de construção, serviços de engenharia, projetos, consultorias e demais insumos — desde que usados na atividade tributada.

A regulamentação definirá os detalhes do creditamento, mas a tendência é de um sistema mais simples e abrangente do que o atual.

O ponto de atenção mais urgente: o redutor de 31/12/2026

Para incorporadoras com empreendimentos em andamento hoje, a data de 31 de dezembro de 2026 é crítica. É nela que se constitui o redutor de ajuste inicial para imóveis já em construção — com base nos custos incorridos até aquela data, comprovados por documentos fiscais.

Isso significa que:

  1. Toda nota fiscal de custo de construção emitida até 31/12/2026 pode integrar o redutor
  2. Documentação incompleta ou sem nota fiscal não pode ser incluída
  3. Quanto maior o custo documentado até essa data, menor será a base de cálculo do IBS e CBS nas vendas futuras

A organização documental de hoje determina a carga tributária de 2027 em diante. Essa é a janela de planejamento mais concreta e imediata para o setor.

Em resumo

A LC 214/25 não inventou tributação sobre a construção civil e a incorporação imobiliária — PIS, Cofins e ISS já existiam. O que ela fez foi unificar, simplificar e criar mecanismos específicos para o setor: redutores que protegem a margem, alíquotas menores do que o padrão geral e regras claras para cada tipo de operação.

Os pontos de atenção imediatos são três: organizar a documentação de custos de construção até 31/12/2026 para maximizar o redutor de ajuste inicial; entender a trava de crédito para obras a não contribuintes; e mapear as operações de permuta de terreno para garantir o aproveitamento correto dos redutores nas unidades entregues.

Para um setor acostumado à complexidade tributária, a LC 214/25 traz tanto desafios quanto oportunidades — e quem se preparar antes de 2027 sairá na frente.

Aviso Editorial

Este conteúdo tem caráter informativo e educacional. Para situações concretas, consulte um advogado tributarista.

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